Os homens-aranha do Brasil

Avenida Brasil 24-06-2019 16:25
Por João Almeida Moreira

O que faziam dois homens-aranha em La Paz, na Bolívia, em 1997?

Especificando: dois homens pulam a janela do seu hotel e atingem a escada de emergência. Sobem-na, com doses iguais de energia, concentração e cuidado, com os pés nos degraus e as costas encostadas a um muro por alguns segundos.

Passado, com perícia, esse muro surge um outro. A dupla repete, com as mesmas energia, concentração e cuidado, o procedimento.

Finalmente, o terceiro muro e o mesmo método para o superar.

Já fora do hotel, os dois entram rapidamente num táxi que os aguarda no lugar previamente determinado.

Não é nenhum filme de James Bond nem os dois homens são famosos agentes secretos. Na verdade, são tão famosos como o 007 mas não pelas mesmas razões: chamam-se Faria, Romário de Souza Faria, e Lima, Ronaldo Luiz Nazário de Lima.

E o motivo para tantas subidas e descidas arriscadas é simples: detestam estágios e concentrações antes dos jogos, adoram curtir uma boa balada e, confiantes por se sentirem os melhores jogadores do mundo ou muito perto disso por aquele tempo, sabiam que a fuga não os impediria de conquistar a Copa América que disputavam no país vizinho.

A história da é contada, na primeira pessoa, pelo mais novo dos fugitivos, Ronaldo, que coloca a culpa na má influência do outro, Romário, dez anos mais velho, pela aventura.

Mas Ronaldo aprendeu o plano de fuga na perfeição e tornou-se ao longo daquela Copa e do resto da carreira um fenómeno a escapar de estágios. Conta Jack Carroll, jornalista britânico que conseguiu convencer o Sunday Telegraph a cobrir o Bolívia-97, ou melhor, o fenómeno Ronaldo, em alta no Barcelona, que um dia viu-se num clube noturno de fim do mundo nos arredores de La Paz ao lado de companheiros jornalistas.

Meio assustado, ia relaxando ao sabor de Paceña, a cerveja boliviana, e da dança de talentosas stripers com cobras enormes e assustadoras a caminharem por entre os braços e as pernas quando olhou para o lado e viu Denilson, então no São Paulo, Flávio Conceição, então no Depor, e o objetivo principal da sua viagem, o Fenómeno, deliciados com o show das serpentes - e das stripers.

Ao longo da prova, cidade após cidade, jogo após jogo, o mesmo padrão, admitem hoje, que o pecado já prescreveu, os craques protagonistas: quando a madrugada chegava, chegava com ela meia seleção brasileira às boites, os incansáveis Romário e Ronaldo à frente do pelotão.

Ah, o Brasil de Mário Zagallo acabou campeão, com seis vitórias em seis jogos e 22 golos marcados. Com cinco, Lima, Ronaldo Luiz Nazario de Lima foi o melhor marcador da equipa, seguido de Faria, Romário de Souza Faria, com três.    

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