Rivalidade só na bola

Avenida Brasil 02-07-2019 03:00
Por João Almeida Moreira

Inglaterra e Escócia defrontaram-se em dezenas de guerras ao longo da história - e já neste século a segunda realizou um referendo para se tornar independente do Reino Unido, dominado pela primeira.

A Alemanha nazi ocupou a Holanda por cinco anos. Espanha e Portugal enfrentaram-se não apenas na península ibérica mas também além mar. 

Croácia e Sérvia ainda não curaram as cicatrizes das guerras balcânicas do fim do século passado. O México e os Estados Unidos podem em pleno século XXI erguer um muro a separá-los.

A Coreia do Sul foi colonizada pelo Japão. Honduras e El Salvador tiveram, têm e, infelizmente, terão questões territoriais, comerciais e sociais mal resolvidas. Os sunitas do Irão e os xiitas da Arábia Saudita mantêm histórico de hostilidade no mundo muçulmano. Chile e Peru discutem desde sempre a supremacia no Pacífico Sul.

Estes conflitos geopolíticos, económicos, religiosos e sociais entre vizinhos refletiram-se nos relvados em memoráveis (e às vezes vergonhosos) duelos.

Brasil e Argentina, entretanto, embora gigantescos e fronteiriços, desenvolveram uma vizinhança pacífica (com um breve parêntesis chamado Guerra Cisplatina, que nascera da rivalidade Portugal-Espanha e determinaria a criação do Uruguai), combatendo quase sempre do mesmo lado em todas as guerras, maiores ou menores.

No entanto, em todos os rankings e listas, esse Brasil-Argentina de que hoje se escreverá novo episódio, é considerado a maior rivalidade futebolística de todas. E é a maior por isso mesmo: é futebolística. Nasceu, cresceu e, espera-se, morrerá no retângulo verde.

Sim, os argentinos, consta, sentem-se mais europeus do que sul-americanos e desse modo são chamados por todos os seus vizinhos de arrogantes.

Sim, os brasileiros, por força do seu tamanho, da sua população e da sua natureza, são tidos como um player económico mais poderoso e, portanto, líder natural da região.

Mas sim, o Brasil, uma potência demográfica, ainda não chegou nem ao Nobel nem ao Oscar, ao contrário dos seus “Hermanos”, o que gera uns ruídos e umas invejas.

A rivalidade, porém, é no campo. É isso, o futebol em estado puro e nada mais, que a define. 

Como se não bastasse, foi protagonizada pelos maiores interpretes da história do jogo – Pelé e Maradona, talvez acima dos demais, mas também Di Stéfano e Messi, entre dezenas de génios do lado argentino, Didi, Garrincha, Zico, Ronaldo Fenómeno, Neymar e tantos outros craques do lado brasileiro.

Hoje, é só isso mesmo: uma rivalidade – ou uma guerra, para quem não se incomoda com alusões bélicas – entre duas potências, talvez as duas maiores, do planeta futebol. 

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias