«Quando Chiquinho usou driblar Pelé»

Meu Brasil Brasileiro 31-07-2018 11:38
Por Redação

Na edição de A BOLA do dia 13 de dezembro de 1980, Duda Guennes contou o episódio inesquécivel da estreia de Chiquinho com a camisola do Botafogo, frente ao poderoso Santos de Pelé, com quem rivalizou durante todo o encontro e que «chegou mesmo a perder a paciência e o sangue-frio». 

Leia o artigo na íntegra: 

«Chiquinho era crioulinho que tinha vindo do juvenil do Olaria para jogar no Botafogo, à altura o melhor time do Rio de Janeiro. A equipa da estrela solitária disputava, taco-a-taco com o Santos, o título de campeão brasileiro.

Brilhava no Santos, além do Pelé-super-star, jogadores como Pepe, Gilmar, Zito, Dorval, Mengálvio e outros craques. No Botafogo, o brilho das suas estrelas não era menos ofuscantes: Gerson, Qaurentinha, Zagalo, Manga e o imprevisível e inimitável Garrincha.

Pois foi num jogo dessa dimensão, com tanto cobra junto que o nosso Chiquinho achou por bem, ou melhor: não havia alternativa, fazer a sua estreia no Maracanã, em noite de gala, com a tarefa de nada mais nada menos de marcar Pelé.

E Chiquinho saiu-se bem. Marcou Pelé homem-a-homem, bem colado, sem conceder as suas jogadas, intercetava as bolas que vinham pelo alto. Antecedia-se às rasteiras. Ganhava as divididas. Impedia as tabelinhas. Desarmava, neutralizava, cortava. Enfim: não dava colher de chá ao crioulão. Pelé bem que tentava, insistia. Mas a tarde não era mesmo dele, era do Chiquinho.

Com o estímulo da torcida botafoguense, e por méritos próprios, Chiquinho crescia enquanto Pelé eclipsava-se inibido. Talvez por não estar nos seus melhores dias ou, talvez (e era o mais provável), por que o santo do nosso Vicente Lucas tivesse baixado no zagueiro- central Chiquinho. Chiquinho marcava firme, duro, em cima, mas com muita lealdade. Pelé, que sempre preferia jogar no Maracanã, estádio onde criou suas melhores jogadas e marcou os mais belos golos, já começava a demonstrar uma certa irritação com a implacável marcação do defesa botafoguense. Começou a ser apupado pela imensa torcida que havia comparecido para vê-lo. Chegou mesmo a perder a paciência e o sangue-frio. E, coisa rara, do seu futebol: passou a agredir e provocar Chiquinho. Este, porém, manteve-se imperturbável, não aceitando as provocações, continuava a jogar limpo. Na bola.Terminou o meio-tempo. Zero a zero no placar.

Recomeçava o segundo tempo. Continuava a mesma cantilena. Chiquinho sem deixar Pelé brilhar. Cortava, intercetava, bloqueava. Ali, sempre, em cima do número 10. Pelé insistia. Chiquinho dava-lhe troco.

Já quase no finzinho do jogo, 43 minutos, Pelé, humilhado, tenta mais uma vez driblar Chiquinho. É desarmado, como esta sendo rotina na partida. Com a bola dominada, Chiquinho tenta por sua vez fazer um brilharete, coroando a sua auspiciosa estreia: driblar Pelé. Nada mais nada menos do que DRIBLAR Pelé, vejam vocês.

Até hoje Chiquinho lamenta a ousadia. Pelé recuperou a bola e, de fora de área, na zona do agrião, acerta um potente morteiro que vai surpreender Manga, até então posto em sossego, que não viu onde a bola passou! Santos 1 – Botafogo 0. Pelé mais uma vez marcou sua presença no Maracanã.

Comentário do jornalista Stanislaw Ponte-Preta, aliás, Sérgio Porto: «Chiquinho devia saber que, depois que um jogador desarma Pelé deve dar graças a Deus e um bicão para a frente. Aliás, deve primeiro dar um bicão para a frente. Aí então é que dá graças a Deus».

MINHOCAS NA CUCA

Pelé acaba de receber um instante convite: ser o treinador do Flamengo carioca. O convite foi feito pela atual directoria do mais popular clube brasileiro. A primeira reação do ex-jogador foi recusar, alegando que tem ainda quatro anos de contrato com a Warner Communications. Mas quando lhe explicaram que o contrato poderia interessar à própria Warner, pois, afinal, o Flamengo estará disputando no próximo ano, e pela primeira vez, o título mundial de clubes, Pelé ficou visivelmente emocionado com o convite. Nunca lhe houvera passado essa ideia pela cuca e, ao impacto da proposta apenas respondeu: -Lá vem vocês me botar minhocas na minha cabeça.

A GRANA DO TOTOBOLA TUPINIQUIM

O Totobola brasileiro – Lá diz-se Loteria Esportiva ou Loteca – continua na liderança de arrecadação em todo o mundo, segundo o último boletim da Intertoto, órgão que congrega as apostas múltiplas desportivas de quase todos os países. O Brasil conseguiu, de Janeiro a Setembro deste ano, 20123020225 (20 triliões) de cruzeiros, vindo a seguir a Itália, com 19822521 cruzeiros, e a Espanha com 18944461400 cruzeiros.

O Totobola brasileiro arrecadou o dobro da sueca, que teve 10650369579 cruzeiros, e quase dez vezes mais do que o nosso modesto totobola linha que, segundo o boletim, apenas facturou 2123020225 cruzeiros. O pobre e desmilinguido cruzeiro equivale aí pelos 70 centavos de escudo.

Dos países filiados, o boletim não trás informações sobre a Argélia, Marrocos e Tunísia. O país que menos arrecadou foi a Checoslováquia , com apenas 325443270 cruzeiros.

UMA FRASE GENIAL

É da euforia do estupendo meia-amador Admir do Guia, que durante muitos anos foi o0 cérebro do Plameiras de São Paulo; várias vezes campeão, estadual e nacional:

«Pior que a embriaguez da vitória, apenas o tédio das intermináveis vitórias».

É mais ou menos o que devem estar sentido os jogadores do Benfica nesta atual temporada.»

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