É proibido sentir o calor»

Meu Brasil Brasileiro 21-08-2018 15:45
Por Duda Guennes

Na edição de A BOLA do dia 3 de janeiro de 1981, Duda Guenes fala do verão brasileiro, de um jogador que apresentou uma marca melhor que Pelé e de uma jazida de ouro que D. João V não encontrou.

Leia o artigo na íntegra: 

«O verão brasileiro começou. Literalmente o Verão do Brasil é fogo. 45 graus à sombra. Calor de rachar catedrais, derreter o asfalto e fundir a cuca às pessoas. Fica tudo de cabeça quente. A corrida às praias continua a ser a solução mais barata e democrática. É de borla.

Apesar das temperaturas altíssimas registadas (no Maracanão já se detectaram 50 graus), oficialmente – e isso vem de uma antiga lei (ou decreto) do tempo do Império ainda em vigor – não podem ser divulgadas publicamente temperaturas superiores a 40 graus.

Isso porque nos tempos que antecederam a República, tema-se que, ultrapassando aquela temperatura, os súbditos se sentissem desobrigados de trabalhar, em virtude do estado de calamidade pública.

Não sei se, na prática esse decreto (ou lei) possuir irgor científico, mas o facto é que o calor dá um moleira, uma vontade enorme de não fazer nada, deitar relaxadamente na praia e curtir o tremendo visual das garotas de Ipanema no seu doce balanço caminho do mar, como disse o poetinha Vinicius de Moraes.

A verdade é que as pessoas ficam mais lânguidas e sensuais. Espalha-se sobre os corpos moreno, bronze e o ideal é conseguir no máximo possível aproximar-se da cor da mulata. Mulata que, para muitos – e conto-me entre esses – é o melhor produto da colonização portuguesa no Brasil. A aquilimia biológica, sexual e racial mais bem realizada com e entre seres humanos.

Mas uma coisa trágica está para acontecer, neste verão carioca: falta de cerveja. Falta que pode quebrar o frágil equilíbrio estabelecido nas praias. Cerveja, sol e carnaval são as razões de ser do verão. Até o futebol é relegado a um segundo plano. A escassez de cerveja pode causar sérios problemas no bom comportamento da população sedenta e ávida.

As primeiras consequências já começaram a se verificar. No passado sábado o camião Mercedes Vp-9839, transportando 480 caixas deste precioso líquido foi assaltado por dois homens armados que renderam o motorista e seu ajudante, abandonando-os no distante subúrbio cariosa de Magalhães Bastos e confiscando a carga.

Foram onze mil garrafas de Brahma-Chopp que voaram em questão de minutos. A essa altura do Campeonato, os felizardos autores do invejado assalto podem dizer como Chico Buarque de Holand, na música Feijoada Completa: Salta a cerveja estupidamente gelada prum batalhão e vamos botar água no feijão.

Friendenreich melhor que Pelé.

Em The Encyclopedia of Wolrd Soccer, editada nos Estados Unidos por Richard Henshaw está dito que o jogador brasileiro Friendenreich, um fogoso mulato de olhos verdes, foi o maior artilheiro da história do futebol, com os seus 1329 golos.

Para nós, brasileiros, o verbete da enciclopédia é motivo de orgulho. Porém, para a excelente revista desporrtrtiva Placar essa informação é uma imprecisão. A propagação do equívico se deve a um pequeno deslize do jornalista carioca João Máximo, no apaixonante texto sobre Friendenreich que escreveu no livro «Os Gigantes do Futebol Brasileiro», publicado no Rio de Janeiro, em 1965. Ele assegurou, baseando-se na pesquisa de veterano jornalista Adriano Neiva da Motta e Silva que Friedenreich teria marcado os 1329 golos devidamente registados na ex-CBD (Confederação Brasileira de Desporto) e reconhecidos pela FIFA. Seria realmente um imbatível recorde mundial, mesmo porque Pelé completou a inalcançável marca de 1284 golos, esse ssim, registados e reconhecidos.

Mas, finalmente quantos golos marcou Fried? Ninguém sabe e dificilmente será descoberto o número exacto, pois as duas únicas pessoas que poderiam desvendar o mistério morreram sem precisar o total: o próprio jogador, que infelizmente, quando foi procurado em sua casa, pelo jornalista Carlos Maranhão o encontro já meio desligado deste mundo: Ele respondeu às perguntas com palavras vagas, os olhos verdes sem vida voltados para um ponto indefinido nas mãos esfregando os cabelos impecavelmente alisados. Morreria alguns anos mais tarde, a 6 de setembro de 1969, sem se lembrar de seus golos de suas glórias e de seu nome.

Outro que também poderia ter clarificado a situação foi o também jornalsita e amigo intimo do jogador, Mário de Andrade, que colecionou as súmulas de todas as partidas disputadas pelo craque, no total de 1329, e prometeu entrega-las  a dde Vaney para que este divulgasse os números e os registasse na FIFA e na CBD. Porém, trágico destino, Mário de Andrade faleceu e a sua viúva, que não curtia dfutebol, jogou toda aquela papelada ao caixão do lixo.

A realidade é que Friedenreich jogou 1329 partidas e marcou 1239 golos – esse é que deve ser o número exacto.

É ouro para Monarca nenhum desprezar

Por esta, o senhor D. João V não contava. E vai rolar o seu real esqueleto no túmulo, quando souber que o Brasil acaba de descobrir a maior jazida de ouro no mundo. A notícia é quente e confirmada: Serra Pelada hospeda no ventre de Carajás, o maior distrito aurífero do planeta. Maior que o do Kolima, na Uniao Soviética, maior que a de Kaalgoorkie, na Austrália, maior que Klondike, no Canadá, ligeiramente maior que o de Witwatersrand, na África do Sul».

São quatro mil toneladas aproximadamente espalhadas pelo espinhaço de Carajás, do qual Serra Pelada é apenas uam grea de 1500 metros do comprimento por 600 de largura.

A informação é da Comissão de Pesquisas do Recursos Minerais que acaba de depositar na mesa do Presidente da Repúblia, os resultados do levantamento metalogénico do outro de Carajás e foi divulgada pelo jornalsita Joelmir Beting, especialista em economia dos jornais O Globo e Folha de São Paulo.

Já imaginaram quantos conventos de Mafra, aquedutos das Águas Livres, palácios luxuosos, teriam sido construídos com esse ouro?

Já imaginaram também quanto desse ouro, nas mãos pródigas do nosso Rei Sol, teriam ido parar nos cofres londrinos ou de Vaticano?

Temo que, nas mãos patrióticas dos atuais dirigentes do Brasil, o outro de Carajás vá parar não em Londres, Mafra, ou Vaticano, mas nas garras tentaculares das multinacionais e o povo brasileiro continua a chuchar no dedo sujo da miséria, como vem sucedendo até hoje. Há séculos!»

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