A América do Sul é uma experiência

Opinião de João A. Moreira 12-08-2019 20:05
Por João Almeida Moreira, em São Paulo

Antes da crise global de 2008, explodiu no mundo o “mercado das experiências”. Oferecia-se safaris em África, voltas de Ferrari, viagens de balão, pulos de para quedas. “O produto uma hora acaba, a experiência é indelével”, argumentavam os empresários e marketeers.

Mas depois do Lehman Brothers, as classes médias deixaram de ter dinheiro para gastar em aventuras, as empresas que as vendiam encolheram ou desapareceram e o “mercado das experiências” entrou em refluxo – no máximo são-nos vendidas hoje como “experiências” atividades corriqueiras, como almoçar ou tomar uma bica , ora porque uma nos faz descobrir paladares escondidos, ora porque a outra nos aproxima do cheiro dos grãos do café.

O “mercado das experiências” a sério ficou limitado aos muito ricos. E entre os muito ricos contam-se os jogadores de futebol de topo, claro. Mas estes descobriram, entretanto, que em vez de pagarem pelas “experiências” podem até receber por elas.

Explicando: não há outra justificação para que atletas milionários como Daniel Alves, Filipe Luís, Rafinha, Juanfran, De Rossi, Jorge Jesus ou Fàbregas troquem – ou cogitem fazê-lo – o futebol europeu pelo sul-americano se não à luz da vontade de viver uma “experiência” radical.

O que eles buscam? Dinheiro? Para isso iam para a China ou outro mercado emergente. Descanso? Para isso fugiam de países, como Argentina e Brasil, onde o futebol é caso de vida ou morte. Qualidade? Para isso ficavam na Europa, onde, todos eles, ainda têm mercado.

O que eles buscam, no fundo, é uma “experiência”: para Juanfran ou De Rossi jogar na Taça dos Libertadores da América ou nas ligas argentina ou brasileira é como fazer paraquedismo ou caçar leões no Quénia.

A América do Sul não oferece mais dinheiro do que a China, não oferece a tranquilidade de um a MLS, porque, convenhamos, nos EUA e no Canadá, apesar de tudo, o futebol ainda é sossegado, e não oferece a excelência do futebol europeu.

Oferece, no entanto, “experiências” que nenhum dos outros palcos consegue dar.

Filipe Luís quer jogar semana sim, semana não no mítico Maracanã, onde se formaram as lendas em torno de Pelé, de Garrincha e de tantos outros, o outrora maior estádio do planeta bola. 

Fàbregas só ainda não decidiu se vai atuar na Bombonera, onde Maradona cresceu e se tornou mito, ou no Monumental, berço da Máquina e palco da final do Mundial-78. 

E sob multidões insanas, radicais, fanáticas, ensurdecedoras numa noite de Libertadores.

A Libertadores não é tão limpinha, tão organizadinha, tão perfeitinha como a Champions – mas é uma experiência e pêras.

Sem conseguir competir financeiramente com a China ou desportivamente com a Europa, o futebol da América do Sul deve pois vender-se como uma experiência para que depois de Daniel Alves e de de Rossi venham outros, venham cada vez mais.

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