«Os números do declínio do futebol brasileiro»

Opinião de José Manuel Delgado 11-07-2018 16:33
Por José Manuel Delgado

O futebol brasileiro está a preparar-se para passar pela mais recente desilusão, a eliminação, às mãos da Bélgica, do Mundial da Rússia, como se não fosse nada, como se não fosse preciso identificar razões para o insucesso.

Não sei se estará na natureza do brasileiro reagir de forma extrema, como se fosse o fim do mundo, num primeiro momento, para a seguir cair numa inércia que nunca leva a nada de bom.

Há quatro anos, por exemplo, quando o país foi sacudido pelo Mineirazo e toda a gente chorava os 7-1, as primeiras propostas de reformulação do futebol brasileiro raiaram o revolucionário, identificaram vários problemas e levantaram uma série de questões pertinentes. Nos dias seguintes, porém, esta fúria regeneradora foi esmorecendo e começaram a ouvir-se os primeiros acordes da canção do bandido, que tudo iria fazer para que nada mudasse. O argumento mais ouvido pelos situacionistas era de que o Brasil, único pentacampeão mundial, não tinha que aprender com ninguém (isto a propósito da chamada de técnicos estrangeiros) e o que acontecera em Belo Horizonte frente à Alemanha não passara de um acidente de percurso. Foi assim que, para suceder a Scolari, não acharam melhor do que Dunga, com os resultados conhecidos. Com Tite, é verdade, o escrete canarinho melhorou, fez uma excelente fase de qualificação e não deixou a torcida envergonhada na Rússia. Mas será que isso basta ao Brasil, o maior produtor de talentos do futebol mundial, um país abençoado por Deus e bonito por natureza, onde brotam jogadores de enorme qualidade que não recebem a formação mais adequada?

Olhemos a realidade dos clubes brasileiros. Será possível falar em projetos credíveis quando os treinadores são despedidos à velocidade da luz, num frenesim sem paralelo em nenhum outro sítio onde se leve o futebol a sério?

Mas foquemo-nos nos números das seleções  do Brasil nos últimos tempos, para concluirmos aquilo que só o pior cego (que é aquele que não quer ver) poderá refutar.

Na  formação, onde o Brasil sempre foi uma potência, o quadro é trágico: os sub-17 não ganham o Mundial desde 2003 e os sub-20 desde 2011 (final contra Portugal, com Óscar como estrela do escrete).

Quanto à Seleção principal, os números merecem meditação profunda: Na Copa América, é preciso recuar a 2007 para encontrar uma vitória do Brasil, sendo que nas últimas três edições (2011, 2015 e 2016), o escrete ficou fora dos quatro primeiros. No Mundial, depois de uma era dourada – campeão em 1994, vice-campeão em 1998 e campeão em 2002 – seguiram-se flops na Alemanha, no Brasil e na Rússia, que, atendendo à decadência que os números comprovam, devia provocar uma forte reação do futebol brasileiro, com um plano de emergência a estar na ordem do dia. Foi aliás isso que países como a Inglaterra e a Bélgica fizeram, com os resultados que estão à vista. Porém, se os brasileiros insistirem que não têm nada a aprender com ninguém, vão ficar cada vez mais para trás.

Última nota para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), um estado dentro do Estado, com um funcionamento de qualidade no que respeita ao apoio à Seleção, mas sem planos consequentes de revitalização do futebol brasileiro. É verdade que não podemos tirar a CBF do contexto do país e o país (que tem o povo mais fantástico do mundo), em alguns aspetos parece um caso perdido. Assim, provavelmente haverá conclusões a tirar do facto de quem dirigiu o futebol brasileiro entre 1982 e 2017 (para não falar nos anos de Havelange e da tutela que exerceu, quando esteve na FIFA e depois e na pesada herança que deixou), os ex-presidentes Ricardo Teixeira, José Maria Marín e Marco Pole Del Nero, estejam todos a braços com a justiça.

A Ricardo Teixeira, sob investigação em quatro países (Estados Unidos, Espanha, Uruguai e Suíça) vale-lhe não haver extradição de cidadãos brasileiros, José Maria Marín cumpre pena nos Estados Unidos. E Marco Polo Del Nero, indiciado nos Estados Unidos em 2015, vai ficando no Brasil para evitar a prisão, mas, entretanto, foi suspenso vitaliciamente pela FIFA. O atual presidente da CBF, Rogério Caboclo, é tido como politicamente próximo de Del Nero.

Será que ainda há quem pense que o futebol brasileiro não tem um problema grave e que os maus resultados são apenas obra do acaso? 

JOSÉ MANUEL DELGADO,

Diretor Adjunto do jornal A BOLA      

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