Um Picasso no porão

Opinião de João A. Moreira 02-05-2019 18:24
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

Uma família luta nos tribunais pela posse de um Picasso que esteve enrolado algures no porão da casa de uma avó durante anos, noticia o jornal Folha de S. Paulo.

Essa família chama-se Alonso e deu ao Brasil um tal de Lula, que não foi presidente da República, mas quase: ganhou cinco vezes o campeonato brasileiro, duas vezes a Taça dos Libertadores e duas vezes a Taça Intercontinental como treinador do Santos de Pelé no início dos anos 60. O próprio Rei surge citado no processo, tomando partido por uma das partes da família Alonso que briga pelo quadro.

Apesar do passado ilustre de Lula no futebol, a notícia foi publicada na secção de Cultura de segunda-feira, o mesmo dia em que a jornada de abertura do Brasileirão 2019 fez manchetes.

Numa delas, uma sentença do selecionador Tite: “O Brasileirão é o terceiro melhor campeonato do mundo, superior ao italiano e ao francês”, disse ele.

Tite não detalhou como chegou a essa conta mas, presumindo-se que ache Premier League e La Liga superiores, tenha portanto omitido da lista a Bundesliga, nada menos do que a prova onde foram concebidos e gerados os intérpretes dos 7-1 das meias-finais do Mundial de 2014.

Ufanismos à parte, o selecionador tem razões para exaltar o Brasileirão: se na Inglaterra, dona do tal melhor campeonato do mundo, há um top-6 de clubes grandes, no Brasil há, pelos menos 12 gigantes, gigantes mesmo, com milhões e milhões de adeptos, o que confere à sua principal competição nacional um nível de imprevisibilidade sem paralelo no mundo.

Como já se escreveu, a humanidade consegue prever o sexo dos bebés, o horóscopo dos 12 signos, a próxima tempestade tropical mas ninguém tem a mínima pista sobre quem será o campeão brasileiro de 2019. Assim como não tinha em 2018, 2017 ou 2016.

No entanto, a imprevisibilidade sozinha não faz uma prova. Assim, como uma história de suspense por mais notável que seja não faz um grande filme do género se não houver bons atores, boa produção, boa realização. Para fazer um bom filme – e um bom campeonato – são necessárias organização e qualidade.

E essas características faltam-lhe: sem liga para o gerir profissionalmente com base no interesse comum dos clubes, afinal a sua alma, o Brasileirão entrega-se à corrupta CBF, organismo que vive há 100 anos da mesma receita clientelista em torno das obsoletas federações estaduais, e que não tem vergonha de marcar jornadas da prova para datas FIFA, interromper a liga por interminável mês e meio para ver a Copa América passar ou privilegiar por meio de prémios a Copa do Brasil.

Défice de organização.

Por outro lado, por mais craques que o país crie, e cria-os como ninguém, só de há uns dois anos para cá a maioria das equipas tenta jogar em 30 metros – nos anos anteriores à derrocada brasileira no Mundial-2014 jogava-se em 70, com espaço entre as linhas para plantar coqueiros ou para um ensaio de uma escola de samba porque cultura tática ainda é considerado “frescura de europeu” no país.

Défice de qualidade.

O Brasileirão tem, portanto, como diz Tite, capacidade para ser o terceiro melhor campeonato do mundo. Tem até para ser o número um, uma espécie de NBA do futebol, dadas as condições geográficas e demográficas do país.

Mas não é porque os dirigentes brasileiros não aproveitam a riqueza que têm em mãos. Tratam o Brasileirão, em suma, como aquelas famílias que deixam um Picasso a ganhar pó enrolado num porão.    

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