Lucas e o trânsito

Opinião de João A. Moreira 13-05-2019 12:49
Por João Almeida Moreira, correspondente no Brasil

Lucas Moura, que aos 18 anos em entrevista a A BOLA de 2011, acabado de renovar contrato com o São Paulo com cláusula de rescisão de 80 milhões de euros, gabava-se de que só o trânsito o conseguia parar, teve uma noite de fábula em Amesterdão, ao assinar hat-trick decisivo pelo Tottenham na meia final da Liga dos Campeões.

E agora? Na sexta-feira, quando Tite divulgar os 23 escolhidos para a Copa América, que se realiza em junho no Brasil, o atacante deve estar na lista ou não?

Não se trata de mera curiosidade: se optar por convocá-lo, o selecionador vai declarar-se fã de uma escola de pensamento; se optar por deixá-lo de fora, tomará partido por outra, oposta.

Explicando: no Brasil há dois grupos de jornalistas, especialistas e torcedores que se digladiam na hora das sempre controversas e demasiadamente debatidas – tal a quantidade de matéria prima à disposição - convocatórias dos selecionadores.

Um dos grupos defende a escola do “futebol é momento”. Por isso, argumentam, deve chamar-se os 23 em melhor forma à hora da divulgação dos convocados.

É mais ou menos o mesmo critério que obedece ao torneio de ténis ATP Finals: algures lá para o fim da época, divididos em dois grupos de quatro, disputam-no os oito primeiros do ranking, sejam eles quais forem. Por mais que adeptos e organizadores esperneiem, se Roger Federer na atualização anterior tiver caído para nono não o disputa – e ponto final.   

Exemplo de uma ocasião em que a escola «futebol é momento» exerceu especial pressão foi em 2010. Às vésperas da leitura dos 23 para o Mundial na África do Sul, realizou-se até uma petição assinada por milhares de brasileiros a exigir que o então selecionador Dunga chamasse os novatos Neymar e Ganso, ambos ainda por estrear pelos canarinhos.

Como o Brasil caiu nos quartos-de-final para a Holanda, as ausências de Neymar e Ganso naquela Copa assombram Dunga até hoje. E deram aos amantes do «futebol é momento» novo ímpeto.

Oito anos antes, às vésperas do Mundial de 2002, a presença de Romário, então já com 36 anos mas acabado de marcar oito golos em cinco jogos no estadual carioca e 22 em 19 no Brasileirão pelo Vasco era exigido por todos, até pelo então presidente Lula da Silva. Mas o selecionador Luiz Felipe Scolari, como sabia que o Baixinho poderia perturbar a paz daquilo a que se convencionou chamar de “família Scolari”, manteve-se fiel aos seus 23, não o convocou e foi campeão mesmo assim.

Ganharam pontos os defensores da outra escola, a que podemos, portanto, chamar de «família Scolari».

Voltando à pergunta inicial: e agora? Lucas merece ser chamado porque «futebol é momento»? Ou Tite, apesar da zanga longa com Felipão, deve ser fiel à lógica «família Scolari», e deixar de fora um atleta que até 2013 fez 31 jogos pela seleção mas que de então para cá se resumiu a quatro participações?

A palavra está com o selecionador. Só ele, como o trânsito, pode parar Lucas.

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