Brasil para inglês ver

Opinião de João A. Moreira 20-05-2019 22:44
Por João Almeida Moreira

No Brasil e restante América do Sul, o Mundial de Clubes é uma competição mítica, grandiosa, definitiva. Na Europa, é um desgaste meio desnecessário e inútil. A razão para essa diferença de perspectiva é vista, no Brasil e restante América do Sul, como mais uma manifestação da tradicional arrogância do velho e snob continente.  

Há qualquer coisa de snob, sim. O Liverpool ou o Tottenham, por exemplo, depois de eliminarem Barcelona, Manchester City, Bayern e outros não sentem que tenham de se provar perante os dignos, mas apenas regulares, campeões asiático, centro-norte americano, africano e até sul-americano. 

Os colossos argentinos, brasileiros e uruguaios são uma espécie de objeto de culto na Europa, pela história, paixão e folclore que carregam, mas, de um ponto de vista puramente prático, hoje não estão ao mesmo nível competitivo. Nem de perto. As razões pelas quais os europeus não dedicam o mesmo entusiasmo ao Mundial de Clubes do que os sul-americanos não se esgotam, no entanto, na arrogância. Há também o fator calendário. 

Ao contrário do que acontece com o Brasil, que faz coincidir a sua temporada desportiva com o ano civil, na Europa a prova surge no meio já do campeonato seguinte, sem ligação direta temporal e desportiva à Champions, e numa fase, mesmo antes do natal, quase sempre sobrecarregada com jogos dos campeonatos nacionais e das competições europeias. 

Por outro lado, há qualquer coisa de cultural. Na Europa não se valorizam tanto campeonatos de tiro curto – dois jogos, 180 minutinhos, um “mata-mata” e, pronto, num estalar de dedos, decide-se quem é o melhor do mundo. Talvez por ser um continente velho, privilegia-se o tempo, a regularidade, a resistência, o fôlego – como a Liga dos Campeões, que começa em julho de um ano e acaba em junho do próximo. 

Arrogância em relação à América do Sul terá, paradoxalmente, o Brasil. Não só porque até meados dos anos 60, 70 e até 80 os seus clubes consideravam os estaduais mais relevantes do que a Taça dos Libertadores da América, como pelo descaso com que tradicionalmente encara a Copa América. 

Caso contrário, faz algum sentido que Uruguai tenha 15 e a Argentina 14 títulos continentais contra apenas oito do Brasil? O pentacampeão mundial, maior celeiro de craques do planeta, vale pouco mais de 50% dos vizinhos?  

Claro que não vale e claro que não faz sentido – a não ser que se entenda a relação dos canarinhos com a prova do seu próprio sub-continente como uma relação de arrogância. Ao Brasil, não interessa mostrar-se à América do Sul. Quer mostrar-se à Europa – e só o Mundial de Seleções, a que o país dedica todas as suas forças, o permite. 

Aliás, a Copa América é vista no país como um desgaste meio desnecessário e inútil: se perde, a torcida dirá que é uma vergonha; se ganha, a torcida dirá “quero ver é daqui a dois anos na Copa...”.

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