Copa Mickey e o racismo económico

Opinião de João A. Moreira 29-05-2019 17:23
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

O Brasil é um país racista? O tema, delicadíssimo, motiva, além de perigosas paixões, incontáveis teses e estudos e livros de história e de sociologia e de filosofia e de ciência política – por isso, não há a pretensão de abordá-lo com a seriedade que merece numa coluna de jornal desportivo.

Mas, em resumo, há quem diga que não, porque, ao contrário do que sucede com um país de estrutura social semelhante, os Estados Unidos, os crimes de ódio racial brasileiros são, antes e agora, residuais. 

Mais: com frequência, os negros das equipas brasileiras são hostilizados quando se deslocam a estádios dos países vizinhos (e na Europa), enquanto no Brasil, embora surjam relatos nesse sentido, essa hostilidade é muito mais suave e contida.   

E há quem diga que sim, é dos mais racistas do planeta, pelo passado esclavagista e por viver ainda hoje numa espécie de apartheid consentido, com empregos, colégios, restaurantes e espaços de lazer a que só acede uma elite – elite, por acaso, quase sempre branca.

No fundo, ainda se vive sob o velho estigma: à casa grande (o local onde nas fazendas coloniais viviam os patrões) o que é da casa grande; à senzala (o local onde nas fazendas coloniais se alojavam os escravos) o que é da senzala. 

Ou seja, pano para mangas. E pano delicado.

A sensação de quem vem de fora, se bem que um português no Brasil nunca seja exatamente alguém que vem de fora, é de que existe por aqui – em certa elite, sublinhe-se - uma espécie de “racismo económico”, não propriamente racial, étnico, político.

O Brasil, registe-se, é um exemplo de tolerância em muitos sentidos - como em nenhum outro lugar do globo, as comunidades árabe e judia vivem lado a lado e os seus membros casam-se uns com os outros. Mas talvez porque sejam do mesmo estrato socio-económico, o que se sobrepõe neste país tão pornograficamente desigual, a todas as outras eventuais diferenças.   

Nota-se um complexo de parte - sublinhe-se "de parte" - das classes mais favorecidas em relação às menos favorecidas que se assemelha ao racismo. Em muitos casos, o rico, mesmo que inconscientemente, trata o pobre, independentemente da cor da sua pele, como se fosse de uma outra espécie.

Dois casos desta semana: o da “passarela da adoção”, evento promovido por uma secção da ordem dos advogados do Brasil num centro comercial de Cuiabá onde crianças carentes, devidamente maquilhadas, desfilavam perante os potenciais candidatos a adotá-los. Como se fossem escravos. Ou gado. E não gente.

E outro, que nos transporta então para o futebol: o da Copa Mickey. O treinador do Flamengo, clube mais popular do Brasil, gabou-se da equipa ter ganho um torneio na Florida patrocinado pela Disney World. No dia seguinte, a torcida, que anda irritada com ele, pichou os muros da sede referindo-se à prova, sem valor competitivo, como “Copa Mickey”.

Um dirigente flamenguista, Cacau Cotta, relativizou então a pichação. “Não foi a torcida”, assegurou, “foi coisa da oposição”. A razão? “Mickey estava bem escrito”. Para Cotta, portanto, o adepto comum do clube que dirige, aquele que mora na senzala, não sabe escrever Mickey - só uma elite flamenguista, a que mora na casa grande, trata o rato por tu.

É o racismo económico na sua plenitude.   

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