Sem Neymar, Brasil é mais candidato

Opinião de João A. Moreira 15-06-2019 13:40
Por João Almeida Moreira

Michael Laudrup foi eleito em 2006 o melhor futebolista dinamarquês de todos os tempos, entrou no onze ideal de estrangeiros da magnífica história do Real Madrid e consideraram-no o principal jogador de La Liga no período de 1974 a 1999,= - um período onde Espanha recebeu toda a realeza do futebol.

Foi cinco vezes consecutivas campeão espanhol – quatro pelo Barcelona e uma pelo Madrid – e ainda conquistou os títulos italiano (Juventus) e holandês (Ajax).

Romário, que dificilmente elogia alguém além dele mesmo, chamou-o de “melhor parceiro” com quem atuou, Beckenbauer disse que nos anos 90 ninguém o superou e Pep Guardiola ainda hoje não entende como ele nunca conquistou a Bola de Ouro. “No auge, ninguém se aproxima do seu nível”, disse Johan Cruijff.

Cruijff, aquele que se tornou o intérprete de uma ideia, o futebol total, que mudou o jogo, inventou uma finta, a “Cruijff’s Turn”, é considerado, com margem, o melhor jogador da história da Holanda, que tantos talentos deu ao mundo, e em 1999 foi mesmo eleito o futebolista número um do século XX europeu.

Ganhou nove campeonatos holandeses e um espanhol.

“O meu herói de infância, o meu ídolo”, resumiu Michel Platini no dia da sua morte. “Ninguém na história fez tanto pelo beautiful game como ele”, acrescentou Gary Lineker. “Um grande exemplo”, disse Pelé.

Pelé, aquele que se não tivesse nascido gente teria nascido bola, é o único tricampeão mundial, escolhido na maioria dos inquéritos, sondagens, pesquisas de opinião, votações, eleições e o que quer que inventem o melhor jogador de sempre. Às vezes, o melhor atleta – somados todos os desportos.  

“O único que desafiou a lógica”, disse Cruijff. “Zico? Fabuloso. Messi? Entre os maiores. Pelé? O maior”, afirmou Laudrup.

Laudrup, Cruijff, Pelé. Porque é que eles são para aqui chamados? Porque são a prova de que, de vez em quando, os grandes, por serem tão grandes, são sombra demasiada sobre os demais. Como os eucaliptos, que sugam toda a água em redor. Às vezes, a sua ausência faz os parceiros melhorarem, crescerem, assumirem a responsabilidade e despertarem a classe que nem sabia que tinham.

Foi assim em 1962. Quando a lesão de Pelé não impediu o Brasil, sem ele quase a totalidade da prova, de se sagrar campeão mundial.

Foi assim em 1978. Quando a ausência de Cruijff, por razões políticas, contratuais ou de segurança, as versões abundam, não impediu a Holanda de repetir o segundo lugar no mundial.

Foi assim em 1992. Quando a retirada da seleção de Laudrup por incompatibilidades com o então selecionador Richard Möller Nielsen não impediu a Dinamarca em clima de férias de ganhar o europeu, seu maior feito internacional.

Neymar – uma estrela indiscutível apesar de todos os tiros no pé - lesionou-se no dia 5 e quatro dias depois a seleção fez a mais solta, leve e agradável exibição desde o Mundial de 2018 - a maior goleada da Era Tite. Honduras não serve de parâmetro? É 61º no ranking FIFA, cinco posições apenas abaixo do Qatar, a quem os canarinhos, ainda com o avançado do Paris Saint-Germain por um bocadinho, não bateram por mais de 2-0.

Sem Neymar, o Brasil é mais candidato. Parece contra intuitivo? Parece absurdo? Apostar na Dinamarca sem Laudrup em 1992, na Holanda sem Cruijff em 1978 e no Brasil sem Pelé em 1962 também parecia.      

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