Jamelão e Cesar Maluco

Opinião de João A. Moreira 24-07-2019 12:24
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

Em 1996, após vencer o Espoli, no Equador, para a Taça dos Libertadores da América, o avião do Corinthians derrapou na pista molhada do aeroporto de Quito e chocou num muro. Com combustível em redor, a explosão era iminente. Mas Paulo Eduardo Romano, conhecido por Jamelão, histórico líder da claque Gaviões da Fiel, só sairia, depois de ajudar, um a um, todos os integrantes do voo a escapar da aeronave.

Momentos como esse e o dos cerca de 10 mil euros do seu próprio bolso gastos em fogos de artifício antes de um dérbi com o Palmeiras, criaram uma aura mitológica em redor de Jamelão.

Mas a melhor história sobre o ex-líder da torcida alvinegra é outra, contada há um mês pelo jornalista Alex Sabino, do Folha de S. Paulo.

Há 21 anos, Sandra Deungaro, mulher de Jamelão, descobriu que estava grávida. Movida pela ansiedade decidiu ir a uma cartomante saber o sexo do bebé. Perante o casal ansioso, a vidente virou-se para Jamelão e disparou: “Você sabe que é adotado, né? E é filho biológico de alguém do futebol”.

O líder da Gaviões não fazia ideia. Em casa, interrogou a sua mãe – adotiva, portanto -, que confirmou: havia sido abandonado no hospital, em 1971, pela mãe biológica.

Jamelão conseguiu a morada dela, em Jaú, a 300 quilómetros de São Paulo. Tocou à campainha e levou logo um susto: apareceu um rapaz – seu irmão... - com a camisa da Mancha Verde, a claque do Palmeiras.

“Jamelão? O que você está fazendo aqui?”, perguntou, meio assustado, o rapaz.

Mas a mãe do corintiano, contou o palmeirense, morrera dois anos antes.

Através de uma tia, irmã da mãe que até então desconhecia, Jamelão ficou a saber que o pai poderia ser José Mansur, dirigente do Timão que, por acaso, era o ódio de estimação da Gaviões por conflitos entre direção e torcida.

No gabinete de Mansur, no entanto, o dirigente negou: “Não sou eu, o teu pai é o César”.

“César, mas qual César?”.

“O César Maluco”.

Jamelão segurou-se na cadeira para não cair.  

Cesar Augusto da Silva Lemos, o Cesar Maluco, foi um dos mais importantes jogadores da história do Palmeiras, pelo qual atuou seis anos e marcou 182 golos, 13 deles em dérbis com o Corinthians. Campeão brasileiro por quatro vezes, foi convocado por Mário Zagallo para o Mundial-1974.   

Para o leitor português ter uma ideia da gravidade da situação, seria como se o Macaco (Super Dragões) ou o Mustafá (Juventude Leonina) se descobrissem filhos de Nené (Benfica), por exemplo.

E Cesar? Como reagiria ele quando soubesse? Não foi Jamelão quem tentou apurar. Foi a Sandra, a mulher, e aos pais desta que coube a delicada tarefa. Pai de três filhas, o ex-palmeirense, desejoso de juntar um moleque à prole, ficou afinal de contas muito satisfeito. Pelo menos, no início.

“Ah, mas ele é corintiano...”, desdenhou, ao saber.

“Não só corintiano”, corrigiu Sandra, a medo. “Ele é o Jamelão, líder da Gaviões”.

Cesar Maluco segurou-se na cadeira para não cair.

Mas após o primeiro encontro dos dois, seguiu-se o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto. Com problemas de saúde, Jamelão abandonou até o stress da direção da claque e foi contratado pelo pai para trabalharem juntos numa concessionária da Mercedes.

Jamelão gostou da oportunidade. E de contar com uma figura paterna na sua vida. Maluco encantou-se com o carisma do filho, que tinha o dom de fazer toda a gente gostar dele.

Em 2012, ano em que o Timão, pela primeira vez na história, conquistou a Taça dos Libertadores da América, Jamelão voltou de Buenos Aires, onde assistira à segunda mão da meia-final com o Boca Juniors, com fortes dores no corpo. Contraíra gripe suína, de que viria a falecer por causa de uma infeção generalizada dias depois, sem ver o seu clube ganhar aquele troféu nem o Mundial de Clubes logo a seguir.

Como os dois mantiveram a sua ligação em silêncio, a entrada de Cesar Maluco, o irreverente ídolo do Palmeiras, no velório de Jamelão, o mais apaixonado torcedor do Corinthians, gerou burburinho e até um princípio de tumulto entre os líderes da claque alvinegra presentes.

“Chiiiiu, fiquem quietos”, ordenou quem conhecia a história, enquanto Cesar abraçava Kauê, o filho de Jamelão, seu neto, e principal motivo daquela ida à cartomante anos antes.    

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