Santos de fora fazem milagres

Opinião de João A. Moreira 29-07-2019 18:08
Por João Almeida Moreira, São Paulo

O Santos tem apenas o sétimo orçamento do Brasileirão. O seu presidente, José Carlos Peres, lidera à moda antiga: despede muito e faz perder a paciência dos seus colaboradores – já vai no quarto diretor desportivo -, gasta energias com politiquices e intrigalhadas e demora a concluir negociações fáceis, como a renovação de contratos com jogadores nucleares ou a aquisição de alvos bem definidos.

O clube, apesar do pico alcançado em 2011, quando sob a batuta de Neymar conquistou a Taça dos Libertadores da América, vem falhando no principal campeonato nacional consecutivamente – não liderava isolado desde o longínquo ano de 2004.

E para se sobreviver no futebol brasileiro, com calendário absurdo, relvados mal tratados, imprensa volátil e pressão, às vezes, criminosa das torcidas organizadas, é preciso ter arcabouço, cabedal, estrutura. Aplica-se ao futebol brasileiro, afinal, a mesma máxima que um dia Antônio Carlos Jobim aplicou ao Brasil no geral: não é país para principiantes.

Ora, contra um orçamento apenas mediano, uma gestão obsoleta, um passado recente pouco promissor e as agruras próprias do futebol local, Jorge Sampaoli, argentino contratado pelo clube de Pelé há sete meses, vem fazendo milagres.

A liderança, isolada, do Brasileirão, após seis vitórias seguidas e ultrapassagem inesperada ao todo poderoso Palmeiras, senhor do maior orçamento, de uma administração moderna, campeão duas vezes nos últimos três anos e com um técnico, Luiz Felipe Scolari, que conhece tudo do futebol onde nasceu e cresceu, é apenas o último desses milagres.

Porque mesmo contra todas as adversidades, Sampaoli vem sendo fiel ao seu estilo - eis o primeiro e maior dos seus milagres. Linha defensiva muito alta, com os riscos daí decorrentes, e toda a gente a atacar num sistema que se pode classificar, em posse de bola, de 2x3x5, ou seja, pré-WM, para se ter uma ideia da ousadia que representa. Sem ela, é em torno de um 3x4x3 mas sempre suscetível de transformações e transmutações de jogo para jogo ou no decorrer dos 90 minutos.

E os atletas, muitos deles não por acaso a fazer as melhores épocas das suas carreiras, executam o plano com cada vez mais entusiasmo e com cada vez mais mecanização. “Como treinador, ele é um monstro”, disse Marinho, um dos recém contratados, dando como exemplo os treinos em que Sampaoli tira um jogador de campo e insiste no ataque, para manter a filosofia de jogo ofensiva mesmo com um a menos.

Antes disso, o argentino de 59 anos, integrou-se plenamente à vida em Santos, convivendo com a população sem guarda-costas ou outros aparatos, usando a bicicleta para se locomover e jogando futevólei na praia porque, quem, como ele, já viveu no Peru, no Equador, no Chile e em Espanha, sabe que não há milagres sem primeiro uma ótima adaptação. O Brasil não é para principiantes – e Sampaoli não é um principiante. 

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